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"Nenhum de Nós" no divã

"Nenhum de Nós" no divã

30/01/2008 04:09

Já faz um tempo que deixei de lutar contra esse meu jeito de observar o mundo de um ângulo inverso, uma diagonal secundária. Percebi que para mim, o difícil é perceber o óbvio, e idéias que antes me pareciam absurdas de serem dialogadas, agora me caem com absoluta tranqüilidade, visto que, cansei de entrar em conflito com minhas próprias conclusões a respeito do mundo.

Pois bem, tendo dito isso – o que seria por deveras incômodo para mim no passado – hei de relatar aqui uma tese; se o amigo leitor tiver paciência, no final, talvez, concordará comigo.

Sempre acompanhei o trabalho desta banda, primeiro porque valorizo os trabalhos gaúchos, e segundo pelo simples fato de que a música é boa mesmo. Nenhum de Nós, comemorando vinte anos de carreira, apresentou-se na beira do Guaíba, em Porto Alegre. Eu assisti esse show, e me deparei com a incrível falta de sorte de Thedy Corrêa em sua saga através dos anos para conquistar o coração de uma linda menina. Poucos perceberam os sinais, as pistas e as marcas que ele deixava ao longo do show – é óbvio, todos estavam dançando e cantando, enquanto eu, atentamente dedicava minha atenção às letras – cada música se encaixa em um cenário facilmente construído por qualquer mente com inclinação à criatividade.

O show começa com uma música nova, chamada “Dança do Tempo”. Nessa música, o nosso amigo Thedy já alerta para o erro de apaixonar-se, seria como uma introdução ao show, que conta a história de sua saga. “Pense, antes de escolher alguém pra namorar, alguém para ficar quem sabe a vida inteira”. Esse verso já indica que algo está por vir, é um alerta, ele avisa atentamente que está preste a contar algo, mas já adverte antes para que ninguém siga seu exemplo.

A segunda música é “Camila Camila”. Ora, ficou claro aqui que nosso amigo não gosta de suspense, então decidiu logo abrir o jogo e falar o nome da pessoa, e os versos deixam claro: “E eu que tinha apenas dezessete anos, baixava minha cabeça pra tudo, era assim que as coisas aconteciam, era assim que eu via tudo acontecer...”. Pobre Thedy, tão novo a já sofrendo por uma mulher, e olha que ele gritava desesperadamente o seu nome no alto do palco. Gostaria de ser como ele, não tem vergonha de expor seus sentimentos.

Vale ressaltar aqui que, eu não pensava em ir ao show para me passar por psicólogo, mas diante disso, me sensibilizei com a estória de um homem que passa a vida à procura de uma mulher. E foi nesta música aqui que eu comecei a me preocupar com ele: “Traga a sua felicidade e mude a minha vida, a sua alegria é bem vinda... santa felicidade, todos os dias da minha vida, ter você”. Que pena, Thedy apaixonou-se perdidamente, e isso é perigoso, muito perigoso!, no mínimo ela deu corda para ele, as mulheres adoram fazer isso. Nesse momento vi uma mulher cantando essa parte da música loucamente, não podendo conceber maior felicidade. “Mas que cara de pau!” Pensei eu, como ela não vê o que se passa? E eu, interessado pela explanação do vocalista, continuei a prestar atenção no show, que por sinal, dava sinais de ser fantástico.

A próxima música era um clássico, talvez o amigo leitor conheça somente por seus versos. “Deixamos de dizer, o que a gente dizia, deixamos de levar em conta a alegria... amanhã ou depois, tanto faz se depois for nunca mais...”. Pois bem, esse fato está presente na maioria dos casais. Depois que se conhece melhor seu amado, começam a surgir os problemas, ah!, quando isso acontece é terrível, principalmente quando cai a fixa de que a pessoa que você tanto sonhou não é tudo aquilo que você imaginava. É incrível a hipocrisia do ser humano em pensar que a pessoa amada é perfeita, e, definitivamente, é incrível a capacidade que a paixão tem de cegar a inteligência humana.

Thedy descobriu os problemas, mas, como qualquer apaixonado, não desistiu de seus ideais, e isso me alegrou, bom, ao menos me deixou instigado a descobrir o que viria adiante:

A próxima música do show chamava-se “Obsessão” – preciso dizer algo mais? – seus versos explicavam claramente, Thedy não conseguia mais viver sem pensar em seu amor (Camila) que, apesar de indiferente às suas idéias, a amava e sofria perguntando-se o que teria saído de errado em seu relacionamento, eu conheço, me escorei triste e acompanhei o show, me solidarizei com seu momento, visto que, já passei por isso. As mulheres, do alto de seus saltos 15, mal imaginam como nós homens podemos sofrer com um amor, Vinícius de Moraes explica isso bem, mas hoje ele não é mais ouvido, então passemos à próxima canção.

Bom, “Julho de 83” nada mais é do que o início de tudo, “Adolescência vazia, eu tinha quase dezesseis”, ele é um homem inteligente. Para que não ficasse tão óbvio o seu modo subentendido de contar uma trajetória trágica, ele inverteu os momentos e misturou tudo em um grande quebra-cabeça. Ele cantava descarregando toda sua emoção lá do palco, entrementes, eu observava tudo aquilo de meu modo singular, talvez errôneo, mas certo de que era o correto.

Atenção agora para o momento em que tudo fica claro, na próxima música: “É que eu te amo mais do que eu devia, nem mesmo eu sabia impedir o que eu sentia, se eu soubesse, tentaria sentir menos, eu queria...”. Pobre Thedy Corrêa, eu entendo o que ele sentiu, agora chegara o momento em que o sofrimento pesou mais na balança do que o amor – afinal, é lógico que o sofrimento sempre está acompanhado do amor, são amigos – ele sabia o que fazer, mas não tinha coragem, ele queria dar mais um tempo, talvez fosse só uma fase, sim!, uma fase que logo passaria e eles seriam felizes para sempre. Mas isso, só existe em contos de fadas. Pois bem, então chegou a hora da separação, uma tristeza, de fato, e sabemos que isso não é esquecido em uma tarde de domingo jogando futebol com os amigos, explicando assim, a próxima música do show. Diga a Ela: “Diga a ela que você me viu, que eu parecia muito bem, apesar das noites vazias, tantas madrugadas vendo TV...” Lógico! Thedy muito esperto não deu seu braço a torcer, apesar de tanto sofrimento, ele tinha certeza de que ela não passava pelo mesmo, então não poderia de modo algum demonstrar que estava sentindo o maior vazio de sua vida e, sem dúvida nenhuma, a maior dor que um ser humano pode sentir, a perda de um amor.

Passam-se os anos - minutos no palco - e me deparo com esta música: “Eu não entendo a sua volta, não entendo a sua indecisão, num dia sou seu grande amor, no outro dia não...”. Mulheres... Fazem de tudo para causar sofrimento e ainda assim retornam como se nada tivesse ocorrido. Com seus perfumes, olhares, cabelos e vozes, sempre nos reconquistam. Sabia onde isso terminaria, mas continuei ouvindo respeitosamente sua jornada. O amigo leitor, caso escute alguma rádio de Freqüência Modulada, conhece esta canção.

“Da Janela” foi o momento ápice do sofrimento desse vocalista, percebi isso no momento em que ele grita com todas as suas forças de cima do palco: “Você ainda me aaaaaaaaaaaaaamaaaaa????” Fica claro aqui que os homens sofrem não pela separação, eles sofrem sim pela indecisão feminina, o famoso “banho Maria”, situação na qual amiúde estamos ligados.

Camila realmente quebrou o coração de Thedy em pedacinhos, e ele cansou-se, agora viria, definitivamente, a virada:

“Não vou mais lhe segurar! Vou deixar que você se vá!”. Toma! A revolta e a indignação fazem ressurgir o ego que foi escondido durante anos por uma mulher. Agora Thedy era uma nova pessoa, mais sensata, matura e segura de si mesma. Resolveu fazer sua vida sozinho, descobriu que só seria feliz se descobrisse sua própria companhia. Revoltado, decidiu mudar-se de planeta, isso explica a última música do show, “Astronauta de Mármore”.

Naquele dia, descobri que a vida prega peças em todos nós, até mesmo nos astros do pop rock nacional. Admirei-me com a perspicácia de Thedy Corrêa, colocou toda a história de sua vida em um show. Imaginei a sua satisfação, observando lá do alto, quarenta mil pessoas pulando, dançando e cantando sem sequer imaginarem o que estava acontecendo naquela noite. Mas eu estava atento, e seu do segredo agora. Mas não se preocupe, ele está seguro comigo, mas passo o recado a você, caro leitor, para que tome cuidado com as inúmeras “Camilas” que existem por aí, e se achar alguma, corra e forme uma banda, vai por mim, dá certo.

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